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#TBT101 - Autodefesa como um ato de resistência

20.10.22 - 13H55
Defesa das Minas
Imagem: Reprodução/Internet

Por Johnny de Sousa
 

A cultura da luta, por mais que possa ser levada como uma carreira profissional muito respeitada, ainda tem um quê de pão e circo. À primeira vista, corpos humanos, em sua maioria masculinos, sendo violados ao vivo, ainda me parece uma imagem muito problemática. No entanto, reconheço que as artes marciais vão muito além da testosterona exagerada e violência gratuita, visto que a disciplina e o respeito são partes fundamentais dessa modalidade.

O que deve ser feito, portanto, é mudar a visão comercial do esporte para uma mais transformadora, que não vise o lucro e o entretenimento por si só. Não há como negar a figura de Ali como um símbolo da luta antirracista, ou também Bruce Lee como um influente lutador que portava grande sabedoria. No entanto, a importância da autodefesa deve ser levada em conta, principalmente em prol da dignidade de cada pessoa. É muito estranho ter que lutar por um direito tão básico, porém, a peleja se faz ainda mais necessária diante do cenário violento do país, principalmente quando se envolvem corpos pretos, indígenas e, em questão, femininos.

O motivo pelo qual tem se falado tanto da autodefesa para mulheres se dá pela misoginia normalizada no Brasil, onde o corpo da mulher é banalizado e objetificado culturalmente. Diante dos cotidianos abusos, sexuais e físicos, desses corpos, Maira Bandeira tem feito um trabalho cada vez mais voltado à proteção do seu corpo através das artes marciais, assim ensinando outras mulheres a importância da autodefesa aos ataques contra mulheres. 

Em junho de 2021, conversando com Priscila Xavier, apresentadora do TPM - Tempo Pra Mim, Maira contou como adentrou no mundo das artes marciais e o que aconteceu para que, enfim, percebesse a necessidade de não só lutar pelo seu corpo, mas fazer com que outras mulheres agregassem à mesma luta.

Priscila Xavier: Uma coisa boa desse momento, em que a gente tá conversando de maneira remota, é que estamos conseguindo conversar com mulheres do Brasil inteiro, nos colocando em contato com projetos bem diversos e interessantes, como o que você está fazendo com o “Defesa Pessoal Para as Minas”. Queria que você se apresentasse agora, falasse como a defesa pessoal entrou na sua vida. Conta um pouco como foi que essa história se desenrolou até agora.

Maira Bandeira: Eu entrei nesse mundo ainda com cinco anos de idade através do meu irmão, que fazia algumas lutas, e muito por conta do meu pai, que sempre gostou de filme de ação e levava a gente pra assistir. Porém, teve um episódio em que, dentro da minha casa, um funcionário do meu pai tentou me estuprar no meu quarto, e quando isso eu ainda era criança. Minha sorte é que tinha uma ajudante da minha mãe por perto, que viu a cena e a impediu de acontecer, andando para trás e chamando meu nome para ajudá-la a arrumar as minhas coisas. Eu lidei com aquilo como se fosse uma brincadeira de mau gosto, mas obviamente que todo mundo da família ficou em choque. A partir daí, meus pais começaram a incentivar minha autodefesa, já que perceberam que não estariam por perto o tempo todo e que, de alguma forma, eu precisaria me defender. Nesse mesmo ano, mais tarde, eu sofri um abuso de sexual de um primo, sendo este episódio ainda mais marcante, pois eu percebi que era algo, de fato, muito mais sério do que uma brincadeira de mau gosto. A partir daí eu mudei, fiquei extremamente retraída e difícil de me enquadrar entre outras crianças da minha idade. Porém, a arte marcial foi o que me ajudou a sair desse estado, e acabou por ser uma grande solução para meus problemas. 


Depois desse forte depoimento, Maira ainda falou da sua iniciação como professora, revelando as dificuldades iniciais que quase a fizeram desistir. No entanto, a sensação de pertencimento à luta lhe inspirou a não apenas continuar aprendendo, mas também ensinando, com um carinho e atenção mais intensa, voltado ao estado mental e físico das suas alunas. 

Maira: Teve um tempo que eu quis me desprender desse universo da arte marcial para viver um pouco; eu tinha quinze anos, eu queria sair, me divertir, ficar com pessoas, então eu sentia que precisava respirar um pouco e viver minha vida… Não demorou um ano e eu voltei pras aulas (risos). Nessa volta, mudei de academia e comecei a dar aula junto com outro professor, o que já me colocou nesse universo, principalmente por conta de amigas minhas que estavam querendo começar a se defender. Na época, a gente morava em Interlagos (SP) e voltava extremamente tarde pra casa, o que já nos dava um certo medo por estarmos mais “vulneráveis”. Minhas amigas morriam de medo e eu também, por traumas passados e situações pesadas da época. Meu diferencial, é que eu sabia me defender, e essas minhas amigas resolveram seguir esse caminho e pegar umas aulas comigo. Foi mais ou menos por aí que eu comecei, tanto que agora estou dando aulas para mais de trezentas alunas matriculadas no curso (...) O mais importante dessas aulas é a confiança que se acaba criando em sobreposição aos seus medos. Não é que eu seja uma pessoa invencível, não é que eu me sinta segura o tempo todo, mas eu sei que se um homem tentar me estuprar ele não vai conseguir. É essa consciência que eu tento passar para todas as mulheres e meninas que são minhas alunas.


Pensar em desistir passou pela cabeça de Maira muitas vezes, principalmente quando viu sua rotina tomada por atividades mais exigentes. No entanto, quando pensou em parar, o espiritual resolveu tomar conta do seu caminho e guiá-la nessa estrada.

Maira: Quando eu estava trabalhando, no centro da cidade, eu tinha folga uma vez a cada quinze dias e usava esse tempo para dar aula. No entanto, a tentativa de conciliar trabalho e aulas gerou uma exaustão muito grande pra mim, o que acabou afetando uma amiga minha que me ajudava no projeto, que, assim como eu, tinha diversas outras coisas pra fazer. Então a gente pensou em parar o projeto, pois não tinha como continuar mais… Mas foi aí que rolou algo interessante. Não sei se esse é um assunto pertinente, mas, me voltando para a espiritualidade, eu acabei tendo um visão, como se eu tivesse que continuar. Eu vi uma mulher negra, na senzala, segurando uma bebezinha recém-nascida, e vendo aquilo eu pude sentir a preocupação daquela mãe, que sabia das dificuldades que sua filha iria passar, por ter nascido mulher e ainda naquela situação. Nossas responsabilidades transcendem em momentos como esse. Por mais que a preocupação seja um medo imposto pela machismo, a gente sabe que tem que lutar pra acabar com esse receio. Uma mãe que reflete costumes machistas, por exemplo, não se beneficia dele, tanto que, por mais machista que ela possa ser, ainda vai rolar um cuidado com sua filha pa